A palavra abracadabra evoca magia, encantamentos e transformação — algo que vai além de truques de palco. Mas sua história é muito mais antiga e fascinante, repleta de crenças, mistérios e usos práticos em momentos de necessidade, como doenças e febres.
A primeira aparição: Roma antiga e o combate à febre
- A menção mais antiga de abracadabra aparece no século II d.C., associada ao médico romano Quintus Serenus Sammonicus, que a recomendava como remédio contra febres.
- Serenus, que teve posição de destaque na sociedade romana (foi tutor de jovens que se tornaram imperadores), escreveu no livro Liber Medicinalis que pacientes deveriam usar um amuleto: um pedaço de pergaminho pendurado no pescoço, inscrito com a palavra “abracadabra” em forma de triângulo invertido, diminuindo uma letra a cada linha até desaparecer. A ideia era que, à medida que a palavra se desfaz, a febre também diminuiria.
Propósitos contra espíritos e doenças
- A palavra era usada como um apotropaico, termo que designa algo capaz de afastar o mal ou o perigo, especialmente espíritos malignos ou doenças.
- Versões semelhantes do encanto chegaram até nós via papiros gregos do século III e códices coptas do século VI. Em muitos casos, variantes da palavra mágica eram escritas em triângulo invertido ou em outras formas decrescentes, para simbolizar a atenuação da enfermidade.
- A crença era: espíritos maléficos causavam males físicos, e escrever a palavra de modo decrescente reduziria o poder desses espíritos, como se se dissesse “vão embora”.
Origens linguísticas propostas
As teorias sobre de onde veio “abracadabra” são variadas:
- Há quem relacione com frases hebraicas, como ebrah k’dabri — com sentido de “eu crio ao falar”.
- Outra hipótese liga o termo ao aramaico avra gavra, que poderia significar “eu criarei o homem”, ou algo próximo.
- Também há sugestões de que o termo tenha sido adaptado ou transformado ao longo dos séculos, recebendo influências linguísticas de várias culturas e crenças populares.
Uso ao longo da história
- Na Idade Média e até o século XVI, registros mostram que abracadabra continuou sendo utilizado como amuleto contra febres.
- Em relatos da Inglaterra do século XVII, por exemplo, as pessoas penduravam papéis com a palavra escrita em triângulo ou pirâmide para se proteger da peste.
- Com o tempo, a palavra migrou do contexto medicinal e místico para o terreno do espetáculo: mágicos passaram a usá-la em apresentações.
O declínio do uso medicinal e a ascensão como símbolo mágico
- Com o avanço da medicina moderna, remédios eficazes e conhecimento dos agentes patológicos (bactérias, vírus etc.), o uso de encantamentos como abracadabra para curas reais foi naturalmente diminuindo.
- No livro sagrado da filosofia oculta conhecido como Thelema, no início do século XX, Aleister Crowley introduziu uma variação da palavra — “abrahadabra” — com significado simbólico e esotérico, ligada à noção de uma nova era.
O que permanece do poder de abracadabra
- Hoje, abracadabra raramente é levado a sério como cura, mas seu fascínio continua vivo: ela é usada em jogos de magia, truques de ilusionismo, cultura pop e expressões literárias.
- Parte do seu poder simbólico pode residir justamente em seu mistério: uma palavra desconhecida, com significado obscuro, com aroma de magia, que gera curiosidade — e respeito.
- A historiadora de linguagens Elyse Graham observa que o encanto tradicional está mais na ideia de algo mágico do que em resultados concretos: uma palavra misteriosa é, por si só, poderosa.
Abracadabra é mais do que um bordão mágico: ela possui raízes profundas na antiguidade, foi usada para combater doenças, afastar males, invocar proteção.
Sua origem exata pode permanecer incerta, mas o impacto cultural é inegável. De remédios mágicos em Roma antiga a truques de palco nos dias de hoje, abracadabra continua presente — um lembrete de que, há muito tempo, palavras podiam ser consideradas ponte entre o mundo visível e o invisível.




