Síndrome de Estocolmo: Por que vítimas defendem seus agressores?

Como isso é possível? Por que uma vítima defenderia seu agressor? Essa reação desconcertante e paradoxal tem um nome: Síndrome de Estocolmo.

É um dos fenômenos mais intrigantes da psicologia humana, revelando como a mente pode se adaptar para sobreviver em situações de extremo terror.

Imagine a cena: após dias de um sequestro tenso, a polícia finalmente invade o local e liberta as vítimas.

Mas, para o choque de todos, em vez de correrem para os braços dos policiais, alguns reféns tentam proteger seus captores, defendem suas ações e, mais tarde, até se recusam a testemunhar contra eles.

O Roubo que Deu Nome à Síndrome

Tudo começou em 23 de agosto de 1973, em Estocolmo, na Suécia. Dois assaltantes armados entraram em um banco, fizeram quatro funcionários reféns e os mantiveram em um cofre por seis dias.

Durante o cativeiro, algo inesperado aconteceu. Os captores, em meio a ameaças de morte, realizaram pequenos atos de gentileza — um deu um casaco a uma refém que estava com frio, outro confortou uma vítima durante uma chamada telefônica tensa.

Quando a polícia finalmente interveio, os reféns resistiram ao resgate, temendo que os policiais machucassem os sequestradores. Uma das reféns, Kristin Enmark, chegou a dizer em uma ligação ao primeiro-ministro sueco: “Eu confio plenamente neles.

O que eu temo é que a polícia ataque e nos mate”. Após o fim do sequestro, os reféns se recusaram a testemunhar contra os criminosos e até arrecadaram dinheiro para sua defesa.

O psiquiatra que analisou o caso, Nils Bejerot, cunhou o termo Síndrome de Estocolmo.

A Psicologia por Trás da Reação

A Síndrome de Estocolmo não é um diagnóstico psiquiátrico formal, ou seja, não está no Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5).

No entanto, é um fenômeno psicológico reconhecido que ocorre em situações de trauma intenso e prolongado. Acredita-se que seja um mecanismo de sobrevivência inconsciente, baseado em alguns fatores-chave:

  1. Identificação com o Agressor: Em uma situação de vida ou morte onde o captor tem controle total, a vítima pode começar a ver o mundo da perspectiva dele. A sobrevivência depende de antecipar seus desejos e mantê-lo calmo.
  2. A Valorização de Pequenas Gentilezas: Em um contexto de terror, um simples ato de humanidade — como receber comida, água ou uma palavra de conforto — é amplificado. O cérebro da vítima se apega a esses momentos como prova de que o captor não é um monstro, tornando a situação psicologicamente mais suportável.
  3. Isolamento e Percepção da Ameaça: Isolada do mundo exterior, a vítima passa a interagir apenas com seu captor. O mundo lá fora, incluindo a polícia que tenta o resgate, pode ser percebido como uma ameaça que coloca em risco o frágil “equilíbrio” estabelecido com o agressor.
  4. Mecanismo de Defesa: É uma forma de negação. A mente se recusa a aceitar a realidade aterrorizante da situação. É mais fácil criar um laço e acreditar na humanidade do captor do que viver com o medo constante de ser morto a qualquer momento.

Além de Estocolmo: Outros Casos Famosos

O fenômeno não se limitou àquele roubo de banco. Casos como o de Patty Hearst, a herdeira americana que foi sequestrada em 1974 e acabou se juntando a seus captores em assaltos a bancos, e Natascha Kampusch, a jovem austríaca mantida em cativeiro por oito anos que descreveu seu sequestrador de forma complexa após sua fuga, são exemplos de como essa resposta traumática pode se manifestar.

A Síndrome de Estocolmo é um testemunho poderoso da resiliência e complexidade da mente humana.

Não é uma escolha racional nem um sinal de fraqueza da vítima.

É uma estratégia desesperada e inconsciente para sobreviver ao inimaginável, um lembrete de que, para o cérebro, a prioridade máxima é, e sempre será, a sobrevivência.

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Gabriel Samy

Olá! Eu sou o Gabriel Samy, e sou o criador do Lado Curioso.

Sempre tive uma curiosidade por tudo o que a história oficial deixa de fora e por fatos que parecem bons demais para ser verdade. Foi essa obsessão por desvendar os mistérios da ciência, lendas urbanas e os truques da nossa mente que me inspirou a criar este espaço.

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